Nas Ciências Humanas é utilizada a tipologia das Ciências Sociais (De Bruyne et al., 1975, pp. 200 a 208) que se caracterizam por três grandes grupos de técnicas de recolhas de dados que servem para instrumentar as investigações qualitativas. Estes três grupos, designados por “modos”, identificam-se por inquérito; que pode tomar uma forma oral – entrevista – ou escrita – questionário; a observação e a análise documental.

As técnicas que as metodologias qualitativas privilegiam são no modo de inquérito por entrevista, que pode ser orientada para temas específicos (Gauthier, 1987), mas que pode tomar a forma de entrevista não directiva (Pourtois e Desmet, 1988, p. 131); no modo de observação, a observação participante e no modo de análise documental, a análise de conteúdo que tem como função a complementaridade na investigação qualitativa e que é utilizada para cruzar os dados obtidos através das outras técnicas.


Sistemas de Observação:

A observação é encarada como um conjunto de utensílios de recolha de dados e um processo de tomadas de decisão (Evertson e Green, 1996). Estas investigadoras identificam quatro tipos principais de registo e de gravação dos dados na fase da observação. São eles: os sistemas categoriais, descritivos, narrativos e tecnológicos.

Os sistemas categoriais são considerados fechados uma vez que as unidades de observação são sempre pré-definidas. Reflectem as atitudes filosóficas, teóricas, empiricamente deduzidas ou formadas a partir da experiência pessoal do investigador (Evertson e Green, 1986, p.169).

Num sistema fechado, o observador está limitado unicamente ao registo dos itens que surgem na lista das variáveis previamente definidos, enquanto que num sistema aberto ele apreende aspectos mais alargados do contexto.

Os sistemas descritivos “tendem a basear-se numa análise retrospectiva de acontecimentos já registados. (…) Além disso, os sistemas descritivos encontram-se intimamente ligados aos registos de tipo tecnológico” (Evertson e Green, 1986, p.177).

Os sistemas narrativos, baseiam-se na elaboração de um registo escrito dos dados numa linguagem corrente do quotidiano. Este registo pode fazer-se no momento da observação de um acontecimento ou de um desenrolar de um conjunto de acontecimentos que decorreram num período de tempo.

Os sistemas tecnológicos de registo de dados são os mais abertos e normalmente surgem em complementaridade com os outros tipos de sistemas. Este sistema pode ser utilizado in situ, ao mesmo tempo dos outros sistemas, ou pode ser um registo ao qual os outros sistemas se venham a aplicar (Evertson e Green, 1986, p.180). A principal vantagem de um sistema tecnológico é a de garantir a conservação intacta da informação.


Observação Participante:

Na observação participante, é o próprio investigador o instrumento principal de observação. Ele integra o meio a investigar, “veste” o papel de actor social podendo assim ter acesso às perspectivas de outros seres humanos ao viver os mesmos problemas e as mesmas situações que eles. Assim, a participação tem por objectivo recolher dados (sobre acções, opiniões ou perspectivas) aos quais um observador exterior não teria acesso. A observação participante é uma técnica de investigação qualitativa adequada ao investigador que pretende compreender, num meio social, um fenómeno que lhe é exterior e que lhe vai permitir integrar-se nas actividades/vivências das pessoas que nele vivem.

Neste tipo de observação, o investigador vive as situações e depois irá fazer os seus registos dos acontecimentos de acordo com a sua perspectiva/leitura. Permite recolher dois tipos de dados: os dados registados nas “notas de trabalho de campo”, que são do tipo da descrição narrativa e os dados que o investigador anota no seu “diário de bordo” que pertencem ao tipo da compreensão pois fazem apelo à sua própria subjectividade.


Entrevista:

A entrevista, segundo (Werner e Schoepfle, 1987, p.78) pode contribuir para contrariar determinados resultados obtidos através da observação participante. Esta última técnica, o observador pertence a uma cultura, por norma, diferente da dos sujeitos observados, a recolha de dados pode ser distorcida pelo etnocentrismo do observador. Para estes investigadores, a entrevista permite ao observador participante o confronto da sua percepção relativa aos dados recolhidos com os dados transmitidos pelos sujeitos “observados”. Consideram esta técnica como útil e um complemento à observação participante. Werner e Schoepfle (1987, p. 79), propõem que se comece por tratar em separado os dados relativos à observação e à entrevista e usar o cruzamento de informação tendo em vista não a confirmação mas sim a identificação de discrepâncias.

Contrariamente à teoria de Werner e Schoepfle, temos a posição defendida por Pourtois e Desmet (1988, p. 131) quando afirmam que a utilização da técnica da entrevista deveria preceder a recolha de dados efectuada pela observação uma vez que irá permitir referenciar e classificar problemas, comportamentos, sistemas de valores, etc., dos sujeitos a observar e permitirá também levantar as primeiras questões de trabalho e das hipóteses.

Das posições ou posturas destas equipas de investigadores deduz-se que a entrevista pode ter uma função preparatória ou instrumental ou uma função técnica essencial. Nesta última função, é a observação participante que irá permitir no início a inserção no meio e que irá fornecer os dados a descobrir ao longo da investigação e que levará, no geral, às interpretações/deduções finais. Como função preparatória, a entrevista poderá levar a novas formulações de categorias de observação.

A entrevista pode ser catalogada em duas grandes categorias (Powney et Watts, 1987), orientada para a resposta e orientada para a informação. Quando é orientada para a resposta, o entrevistador mantém o controlo no decurso de todo o processo. Orientada para a informação quando visa circunscrever a percepção e o ponto de vista de uma pessoa ou grupo de pessoas perante uma dada situação.

Pourtois e Desmet (1988) preferem a utilização da entrevista não directiva, processo interactivo onde o investigador deve encorajar a livre expressão do sujeito através de uma escuta atenta e activa, do que a entrevista clínica que em linhas gerais correspondem à designada entrevista orientada para a resposta por Powney e Watts (1989).

Van der Maren (1987, p.32) concebe o inquérito por entrevista clínica como uma técnica que necessita de preparação por parte do entrevistador como do entrevistado.


Os modos de investigação:

As metodologias qualitativas privilegiam os modos de investigação do tipo estudo de caso e do tipo comparação.

Os estudos de caso correspondem ao modo de investigação onde o estudo é o menos construído, portanto o mais real, o menos limitado, portanto o mais aberto e o menos manipulável, portanto o menos controlado. Em investigações deste tipo, o investigador está pessoalmente implicado ao nível de um estudo aprofundado de casos particulares e pressupõem uma “participação activa na vida dos sujeitos observados e uma análise em profundidade do tipo introspectivo” (De Bruyne et al., 1975, p. 210).

Para De Bruyne et al. (1975) e Robert Yin (1975), o estudo de casos toma por objecto um fenómeno contemporâneo situado no contexto da vida real, as fronteiras entre fenómeno estudado e o contexto não estão nitidamente demarcadas e o investigador utiliza fontes múltiplas fontes de dados.

A investigação do tipo comparação visa descobrir convergências entre vários casos e baseia-se num estudo aprofundado de cada um deles.

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