3.3.3 Passos fundamentais de um estudo qualitativo


Servindo as definições para uma tentativa de centrar a nossa perspectiva neste paradigma, o nosso trabalho, nesta primeira parte terá por função fornecer algumas linhas orientadoras para a elaboração de um estudo qualitativo.
Não pretendemos fornecer um modelo de estruturação de estudo – até porque estes variam nos estudos qualitativos – mas sim salientar aspectos fundamentais a ter em conta na sua elaboração.

a) O problema
Num estudo qualitativo, como é o caso de uma investigação em educação, o problema poderá surgir através da revisão de literatura ou através da experiência ou vivências do investigador.
Definir o objecto de estudo é um passo fundamental para a consecução de uma boa investigação. Num trabalho, o problema deve ser descrito sucintamente, através da elaboração de um possível título, e, sobretudo, ponderar bem se essa questão será passível de ser investigada.
O problema, como refere Coutinho (2005), baseando-se no trabalho de Punch (1998) tem cinco funções básicas numa investigação:
· Organiza o projecto, dando-lhe direcção e coerência;
· Delimita-o, mostrando as suas fronteiras;
· Focaliza o investigador para a problemática do estudo;
· Fornece um referencial para a redacção do projecto;
· Aponta os dados que serão necessário obter.
Um «título provisório» poderá, portanto, ajudar a focalizar a direcção da investigação, convém esclarecer, que, o mais provável é que esse título venha a sofrer modificações ao longo da investigação.
Num estudo qualitativo, a definição do problema vai determinar a metodologia e abrir as restantes portas ao estudo, parafraseando Flick (1998)????
Um dos erros de principiante é utilizar um título demasiado complexo, numa tentativa de “imitação” de obras lidas, mas que têm já muito trabalho prévio atrás.
Para verificar a viabilidade de investigação podem colocar-se algumas perguntas. Creswell (1994) sugere seis perguntas-chave:
· Será possível a investigação no tempo previsto; com os recursos disponíveis e acesso à informação?
· O tópico desperta suficiente interesse?
· Serão os resultados de interesse para outros (leitores; público em geral ou outros investigadores)?
· Haverá possibilidade de publicação na área?
· Será que o estudo vai preencher um vazio, replicar, aprofundar ou desenvolver novas abordagens na área?
· Irá a investigação contribuir para os meus objectivos profissionais?
b) Revisão de Literatura
Objectivos principais:
· Contextualizar o estudo, dando-lhe importância comparativa;
· Alargar os horizontes do estudo
· Estabelecer prioridades para as pesquisas.
Cuidados a ter na revisão de literatura:

Devemos estabelecer um «mapa» para organizar a revisão de literatura e delimitá-la aos pontos essenciais da investigação.

- Um bom estudo não o é pelo facto de ter maior número de referências bibliográficas, estas devem, sim, ajudar a compreender e situar o tema da investigação a realizar.
- As referências à literatura deverão ser resumidas e que tenham interesse para o estudo em questão.

Para seleccionar a literatura de forma adequada, tarefa árdua para um investigador principiante, podemos seguir alguns conselhos (Creswell, 1994):
Conselhos para principiantes:
  • Começar por artigos de revistas conceituadas da especialidade;
  • Começar por pequenos artigos e avançar para estudos mais complexos;
  • Começar por artigos / estudos mais recentes e ir recuando no tempo;
  • Ler, por exemplo, primeiro artigos, monografias e depois livros;
  • Pesquisar actas de conferências, uma vez que estão mais actualizadas;
  • Procurar dissertações ou resumos relacionados com o tema.
c) Os objectivos do projecto

Neste ponto estabelece-se a direcção da investigação, a sua essência. Deverá ser redigido de forma clara e concisa. Aqui se explicita claramente o paradigma em que o estudo, maioritária ou exclusivamente, se insere: qualitativo ou quantitativo.

Conselhos para principiantes:
  • Referir, com clareza, a ideia ou ideias centrais da investigação;
  • Definir o conceito central da investigação;
  • Identificar o tipo de estudo que será realizado (etnográfico, estudo de caso, grounded theory, ou outros);
  • Referir o grupo/s de análise do estudo (turma, organização, programa, acontecimento…).
Ou seja, com clareza deve ser identificada a questão de investigação; a sua importância e relevância científica, o tipo de estudo, os sujeitos de estudo, a metodologia / métodos assim como um breve enquadramento teórico.

d) Metodologias

As metodologias utilizadas na recolha de dados deverão ser coerentes com o tipo de estudo e o paradigma onde se insere. Alguns exemplos tradicionais de um estudo qualitativo são:
· A observação (participante ou não)
· Entrevista (presencial, telefónica, em grupo etc.)
· Análise documental (actas, jornais, documentos privados ou públicos, cartas)
· Materiais audiovisuais
· Outras metodologias, adaptadas de estudos qualitativos, como os inquéritos/ questionários.
Não esquecer:
· Ao utilizar estas metodologias para a recolha de dados, deve o investigador criar guiões uniformizados para os vários registos: guião de entrevista; guião de observação; guião de pesquisa documental, para que os dados possam ser registados da forma mais rigorosa possível, com critérios uniformes.

e) Análise de dados

Uma vez que nos estudos puramente qualitativos não há uma estrutura muito rígida que oriente a análise dos dados recolhidos, isso não implica que não deva existir rigor e critérios para o fazer. Sendo estudos que investigam relações sociais, é necessário que o investigador tenha alguns cuidados, para que o estudo possa ser credível:
· O investigador deverá ser capaz de ver explicações alternativas e /ou contrárias àquelas que esperava;
· Deverá estar aberto a diferentes possibilidades;
· Deverá ser capaz de realizar comparações e contrastes.
Ou seja, investigar não é fazer com que os dados recolhidos vão ao encontro das expectativas iniciais do investigador, mas sim, relatar os dados resultantes da investigação.

f) Validade / Verificação do estudo

Tal como vimos no ponto anterior, o estudo, apesar de qualitativo – e por isso, dependente de interpretações mais subjectivas – deve reger-se por parâmetros que possam conferir-lhe rigor.
Embora este tipo de estudos não tenham generalização fiabilidade, na medida em que são contextualizados, existem algumas formas de validar dar o máximo de fiabilidade ao estudo:
· Triangulações: encontrar convergência em outras fontes de informação; com diferentes investigadores ou diferentes métodos dos utilizados por si;
· Feedback: (memberchecks) – receber feedback dos participantes no estudo e auscultar as suas opiniões relativamente aos resultados do estudo;

· Peer examination /Opinião ou validação por pares – Procurar a opinião de investigadores da mesma área ou que tenham estudos semelhantes. Não só relativamente aos resultados, como também relativamente à validação de metodologias a utilizar durante o estudo.

g) Conclusão

Nos estudos qualitativos as conclusões deverão ser expressas em forma de discurso narrativo, descritivo e não de um ponto de vista demasiado científico; deverá dar uma perspectiva holística e ser também o momento da descrição das experiências do investigador e dos seus significados.
O investigador deverá ser sempre honesto na apresentação das suas conclusões. Caso não o seja, o estudo não terá valor científico e não atingirá nenhum dos seus objectivos.