Todo o material compilado no campo, como notas de trabalho, gravações em vídeo, transcrições das entrevistas, …, é considerado uma fonte de dados a partir da qual serão construídos os dados graças aos meios formais que a análise proporciona.

O modelo interactivo, defendido por Miles e Huberman (1984,p.23), apresenta-se em três componentes:
  • a redução dos dados;
  • a sua apresentação;
  • a interpretação/verificação das conclusões.

A imagem seguinte apresenta sob a forma de esquema a modelização das três componentes do modelo interactivo da análise dos dados, segundo Miles e Huberman (1984, p.24):

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Segundo Miles e Huberman (1984, p.24) estas três componentes de análise qualitativa estão também presentes no contexto de análise quantitativa. Estes autores definem a primeira componente como um processo de «selecção, de centração, de simplificação, de abstracção e de transformação» do material compilado.

A redução dos dados é uma operação contínua que “vai do momento em que é determinado um campo de observação até à fase em que se decide aplicar um sistema de codificação e proceder a resumos” (Miles e Huberman, 1984, p.23).

Van der Maren (1987), numa opinião que também partilham Miles e Huberman, considera que esta primeira fase é o primeiro momento da interpretação dos dados numa investigação. O segundo momento ocorre após o tratamento desses dados o que corresponde à terceira componente defendida por Miles e Huberman (1984). Estes dois autores põem o investigador em guarda contra o perigo de o processo de redução não passar de uma mera quantificação de dados.

Van der Maren (1987) formula quatro princípios que poderão servir de balizas ao investigador no momento da interpretação:
  1. Necessidade de uma documentação organizada e precisa no momento da transposição das respostas dos entrevistados para um sistema de códigos utilizado para reduzir a um conjunto manipulável;
  2. O respeito por uma consistência de base e por uma coerência na aplicação das regras de transposição;
  3. Manutenção das características dos dados independentemente da sua redução e dos códigos utilizados para o fazer;
  4. A circunscrição aos formatos originais: não adicionar nem atribuir, aos códigos dos valores, poderes que não se encontram presentes nos dados (Van der Maren, 1987, p.55).

O tratamento dos dados está relativamente formalizado: quer se trabalhe com dados qualitativos quer com dados quantitativos, trata-se sempre de resumir, em seguida de organizar, estruturar e por último apresentar as relações ou estruturas daí resultantes (Van der Maren, 1987).

Miles e Huberman (1984, p.24) definem esta fase de tratamento dos dados como a “estruturação de um conjunto de informações que vai permitir tirar conclusões e tomar decisões”. Segundo eles, a operação de apresentação de dados é, por vezes, negligenciada e é sem dúvida, de extrema utilidade na redacção do relatório final, uma vez que os textos narrativos são compostos por informações dispersas, vagamente estruturadas e difíceis de reter.

É por isso que a organização dos dados corresponde a uma fase determinante da análise:
  • Permite ao investigador uma representação dos dados num espaço visual reduzido;
  • Auxilia a planificação de outras análises;
  • Facilita a comparação entre diferentes conjunto de dados;
  • Garante a utilização directa dos dados no relatório final.

É a razão pela qual Miles e Huberman (1987, p.25) incitam os investigadores a atribuírem bastante importância a esta vertente e afirmam “que o recurso a modos de apresentação que reduzam e estruturam os dados é uma importante via de aperfeiçoamento da análise dos dados qualitativos”. Opinião idêntica à de Van der Maren quando nos diz que, e passamos a citar,

A primeira fase, a codificação, consiste em fazer enquadrar num mesmo formato os dados expressos com maior ou menor liberdade e com maior ou menor idiossincrasia; na segunda fase trata-se de os fazer sair do formato utilizado no tratamento para o transpor e encontrar ou reencontrar um sentido. Assim, a interpretação é, primeiramente, redutora para, em seguida, ser criadora através da elaboração de explicações e de novas questões que transcendem a secura dos resultados. (Van der Maren, 1987, p.48).

No momento da interpretação, Van der Maren associa-lhe as funções de adivinhação e encenação. Esta última, integra uma forma de interpretação que efectua “uma transposição analógica, dinâmica, simultaneamente a vários níveis, de uma mensagem estática (escrita, linear e sem sobreposição)” (Van der Maren, 1987, p.52).

A adivinhação corresponde a uma função de revelação do oculto que implica: respeitar o paralelismo intersubjectivo, que implicam que o investigador ajuste a interpretação dos resultados a tudo aquilo que os dados permitem e implicam e manter a sobreposição das estruturas aparentes e reveladas, forçando-se a não introduzir nem a impor um desvio que favoreça o interprete e o seu poder em detrimento da evidência dos dados ou da inteligência dos seus informadores e leitores.


Redacção de um relatório de investigação qualitativa

A redacção do relatório, que constitui a última etapa do processo de investigação, desempenha uma função de exposição, tal como a apresentação dos dados que nela será incluído, e impõe um formato ao pensamento. Um dos primeiros problemas que se apresentam ao investigador quando redige um relatório de investigação é o de ela “ter de traduzir, de modo linear, aquilo que foi, na maioria dos casos, um processo bastante circular” (Van der Maren, Dez.1987, p.51).

À semelhança do que sucede com a apresentação dos dados, o relatório de investigação não deverá tomar a forma de um simples texto narrativo e anedótico, deverá sim, segundo Van der Maren (1987, p.51) sofrer reduções através da condensação da crónica das etapas e da eliminação do anedótico, e desenvolver a vertente argumentativa para além da sua função de exposição (Erickson, 1986).

Numa investigação qualitativa, o investigador deverá expor no seu relatório “provas” não do tipo causal mas sim uma demonstração da plausibilidade dos resultados encontrados. Para além das funções de exposição e de argumentação, o relatório pode ter uma função didáctica, no sentido em que se pode tornar num “processo de ensinamento de resultados” (Erickson, 1986, p.149,156).

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